Chan Hou Seng

Na língua chinesa actual, o termo “manhua” (caricatura/ banda desenhada) tem duas acepções. A primeira refere-se a caricaturas, desenhos simples e humorísticos, para expressar certas ideias ou pensamentos. Estes desenhos são simples mas muito expressivos, em geral de formato pequeno, com os traços físicos dos personagens exagerados e uma penetrante mensagem subjacente. A segunda acepção, de banda desenhada, refere-se a séries de desenhos já mais elaborados que seguem um enredo que retratam cenas da vida diária e que são geralmente seriados em publicações.

Na exposição “Humor e Humanidade”, as obras apresentadas são em geral caricaturas , no sentido do termo cartoon.

Na China, a mais antiga ilustração que se conhece do género caricatura é “Uma peça de Harmonia”, por Zhu Jianshen, o imperador Xianzong da dinastia Ming. Neste desenho, o monge budista Huiyuan, o monge taoísta Lu Jingxiu e Tao Yuanming, todos da dinastia Jin, abraçam-se para formar um grupo coerente.Trata-se de uma ilustração temática com uma mensagem muito clara: a união dos três sistemas filosóficos – Budismo, Taoísmo e Confucionismo. No entanto, o termo “manhua” (caricatura/banda desenhada) só surge em 1925, quando foi utilizado pela primeira vez por Feng Zikai.

Entre os cartunistas do Macau contemporâneo que publicam regularmente, Chou Cheong Hong é o mais antigo e sem dúvida o mais influente, com uma profícua carreira recheada de obras de sabor local. Como aluno brilhante de Tam Chi Sang, um conceituado pintor de Macau da antiga geração, Chou adquiriu ao longo dos anos uma sólida formação em desenho, tendo começado a publicar ainda na década de 50 no Macao Daily News, no jornal Va Kio e em diversos outros jornais e periódicos de Hong Kong e Singapura. As ilustrações de Chou são uma combinação de caricatura e de banda desenhada, versando diversos temas intimamente ligados a questões sociais de todos os tempos. Ele investiga e critica severamente a política do momento, as irregularidades e as falcatruas, ao mesmo tempo que põe em evidência os costumes vigentes. Chou segue com interesse os diferentes aspectos do dia a dia das pessoas e dá voz aos que não têm voz. Ao longo de mais de cinco décadas, a criatividade incessante de Chou suscitou gargalhadas dos leitores ou levou-os a praguejar de frustração. A exposição “Humor e Humanidade” apresenta uma criteriosa selecção de mais de 150 desenhos humorísticos de Chou referentes a diversos períodos, com a maioria deles a ilustrar o seu estilo incisivo.

Na sua descrição de cenários corriqueiros do dia a dia, Chou revela todo o tipo de fenómenos sociais e expõe a raiz dos problemas que afectam a sociedade. Por trás das suas zombarias e irreverências, muitas veze acompanhadas de um sarcasmo divertido, há sempre um sinal de preocupação sincera. Ao apreciar os seus desenhos multifacetados, os leitores não podem deixar de sorrir ou reflectir. As pessoas que viveram situações pessoais ou alterações sociais similares às descritas por Chou, recordarão vividamente esses tempos antigos ou terão um vislumbre de compreensão da vida, para além da simpatia revelada pelo autor. Para os mais jovens, nascidos nas décadas de 80 e 90, esta série de caricaturas e de banda desenhada tradicional poderá, de alguma forma, ajudá-los a compreender melhor a geração mais velha e a cidade em que vivem.

Durante o ano passado, o lema do Museu de Arte de Macau foi “A nossa Cidade, o nosso Museu” e o objectivo foi fomentar no público um maior interesse pela cidade onde vive. E esta exposição “Humor e Humanidade” é uma continuação dos esforços do MAM nesse sentido. Que a nossa cidade e o seu ambiente artístico se desenvolvam a par de uma maior consciência cívica das suas gentes!



Chan Hou Seng
Director, Museu de Arte de Macau