O Passado – Mestres de Macau

Exposição de Poesia, Caligrafia, Pintura e Sinetes

Prefácio


Basta um olhar sobre a história de Macau para podermos descobrir duas vívidas características: a primeira que merece referencia é o facto de nos 400 anos de ocupação pelos Portugueses, mesmo durante a administração colonial portuguesa e principalmente durante a Guerra do Ópio no século 19, Macau sempre partilhou o mesmo ar com o continente e os seus destinos estiveram sempre entrelaçados. A segunda característica notável é a transformação de Macau de pequeno porto num dos maiores centros turísticos de lazer mundial, bem posicionado no 12º Plano Quinquenal da economia nacional e desenvolvimento social.

Uma vez que sempre manteve uma grande população móvel - como uma cidade de imigrantes em qualquer época - a cultura de Macau tem sido muito afectada por influências estrangeiras. Não é difícil de se definir legalmente a identidade dos residentes de Macau. No entanto, é bastante complicado de descrever, num contexto histórico, a identidade de um determinado habitante de Macau como residente ou não, porque isso depende especificamente do comportamento da pessoa.
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Reconhecendo isso, os visitantes poderão entender a dificuldade de preparar uma exposição como “O Passado - Mestres de Macau: Exposição de Poesia, Caligrafia, Pintura e Sinetes Entalhados”. A parte mais difícil é a de definir os "mestres de Macau". Uma simples norma não é suficientemente convincente. Como sempre, há muito poucos artistas puros e nativos de Macau, enquanto que o núcleo é geralmente composto por imigrantes, turistas, residentes temporários ou mesmo visitantes.

Apesar de os portugueses terem ocupado e se estabelecido em Macau, desde o século XVI por mais de 400 anos, mais de 90% dos residentes locais são chineses que imigraram de Zhongshan, Nanhai, Panyu, Shunde e Siyi (Xinhui, Taishan, Kaipin, Enping), que falavam a mesma língua e compartilhavam a mesma cultura. Os residentes locais têm uma linguagem, costumes e tradições similares com os locais das regiões vizinhas do continente.

A cultura chinesa tem raízes muito profundas em Macau, especialmente a arte tradicional a qual está profundamente enraizada. Assim, a pintura, a caligrafia e a talha de selo, assumiram papéis muito importantes em Macau.
Os chineses gostam de ver estas obras, pois estão bastante familiarizados com estas formas de arte tradicionais. Quando os missionários europeus trouxeram a pintura a óleo, a arte ocidental foi introduzida no continente através de Macau. Mas isso não impediu que os estudiosos chineses deixassem de perseguir as "Quatro Competências" - poesia, caligrafia, pintura e Sinetes Entalhados. A difusão da pintura ocidental para o Oriente pouco mudou ecologia da arte tradicional em Macau. Ambas as formas de arte, oriental e ocidental, não se contradizem, mas expandiram-se à sua maneira, para um espaço cultural mais amplo.

Há muito poucas referências e materiais originais disponíveis relacionados com o progresso do desenvolvimento da arte tradicional e literária de Macau desde a altura da Guerra do Ópio até hoje.

No passado, a educação básica local não era concluída e a base cultural era tão fraca que foram publicados poucos documentos tornando a pesquisa sobre a arte de Macau ainda mais difícil. Actualmente, já se pode desenhar um esboço sobre a evolução da arte tradicional de Macau até aos tempos actuais. Todavia, o aprofundamento de pesquisas e análises terão que ser feitas por futuros investigadores. Este é precisamente o objectivo desta exposição: através de obras autenticas chamar a atenção da opinião pública sobre a cultura local, para provar ainda mais a história e representar o contexto do desenvolvimento da arte tradicional de Macau permitindo assim que as pessoas re-experimentem o papel único que Macau desempenhou e a forma como contribuiu para a história do evolução da arte chinesa.

Durante a Guerra de Resistência contra a invasão japonesa, metade China estava sob o controle do exército japonês. Macau esteve perto de se tornar uma "ilha isolada", mas conseguiu sobreviver por causa da sua experiência internacional. A fim de apelar à resistência contra os japoneses, ou simplesmente para fugir da guerra, muitos estudiosos viajavam de longe para chegar a Macau. Entre eles, o famoso Liao Pingzi (1880-1943) de Shun da província de Guangdong. Liao Pingzi de Shun, nascido na dinastia Qing, assistiu à corrupção e a incompetência do governo que se tornava cada vez pior e fez um esforço supremo para resistir contra o Manchuismo. Mais tarde, durante a guerra anti-japonesa, fez de novo esforço máximo. Passou grande parte da sua vida angustiante e gloriosa durante este período. Entre 1938 e Maio de 1942, Liao lançou as revistas "Liu Yan"e "Tian Feng" para divulgar a ideia da salvação nacional e doou todo o seu rendimento ao movimento de Resistência contra a invasão japonesa. Porque Macau estava localizado no Sul da China, foi poupado pelas invasões japoneses devido ao seu estatuto especial internacional, tornando-se logo num lugar onde os chineses podiam falar livremente contra o abuso japonês.

Para cada edição "Liu Yan" imprimia apenas 15 cópias. Após a quadragésima edição o nome era mudado para "Tian Feng". As duas publicações, as quais Liao trabalhou unicamente como editor, compilador, escritor e escultor constituem até hoje, um registo importante da história da publicação da China.

Liao Pingzi era bem versado em poesia e pintura. Esta exposição mostra em especial os seus poemas escritos à mão e as cenas íntimas (Xiao Jing) da paisagem de Macau que foram feitas durante os anos em que permaneceu no território e estava totalmente comprometido com o movimento de Resistência contra a invasão japonesa. Ela contém certamente peças de registos históricos de Macau, bem como preciosas relíquias de testemunho desta passagem agitada da história da China.

Examinando-os é como se alguém estivesse revisitando a história e a ser profundamente tocado pela devoção dos precursores para a nação e o seu espírito indomável. Entretanto, existem também muitas outras histórias conhecidas relacionadas com a Escola de Pintura de Lingnan: para se refugiar da guerra, Gao Jianfu (1879-1951) veio para Macau e abriu a Escola de Arte Chun Shui no Templo de Kun Iam para ensinar arte; e Guan Shanyue (1912-2000) esteve sob os cuidados do abade Shi Huiyin (?-1979). No fim dos três anos da guerra civil chinesa, os chineses continentais utilizavam frequentemente Hong-Kong e Macau como um trampolim para irem para outros países. Em 1949, Zhang Daqian (1899-1983) teve uma estadia temporária em Macau. Aqui, o grande pintor iniciou contactos e intercâmbios de arte com artistas locais, os quais Zhang Guchu (1891-1965) registou em forma de poema(s), anotando assim, o tão falado conto sobre as actividades artísticas em Macau na altura.

Macau é o "pont du tête" do precoce intercâmbio cultural entre a China e o Ocidente - a primeira paragem para a introdução da arte ocidental na China e o âmago para os pintores europeus que buscavam o exotismo no século 19. É também o lugar onde Sun Yat-sen (1866-1925) colocou em prática a sua ideia de resgatar o país enquanto exercícia medicina.

Quando o continente chinês caiu nas mãos dos japoneses, Macau foi a zona de actividade para a promoção da resistência contra a invasão japonesa, o abrigo para os estudiosos e artistas continentais, sendo ao mesmo tempo a base para os artistas da Escola Lingnan. Foi também o campo artístico, onde Deng Fen (1894-1964), Luo Shuzhong (1898-1969), Situ Qi (1907-1997), Chui Tak Kei (1912-2007), Lin Jin (1923-2004) e permaneceram ligados, o jardim em que Guan Wanli (1912-1983), ZhaoWeifu (1906-1990), Gan Heng (1952-2004) e Tam Chi Sang (1920-2007) cultivaram e promoveram sinceramente os talentos da arte.

"O passado é o passado e a vida não espera por ninguém!" A exposição apresenta 80 autores, incluindo vários"mestres de Macau” do século passado. Alguns desses pioneiros sempre nos ensinaram ou guiaram-nos, assim as suas obras fazem-nos lembra-los vividamente e suspirar: "a história não permite que o homem a pare”. Portanto, a exposição é intitulada "O passado”. Possui 120 peças / conjuntos de obras, tanto do MAM como de excelentes colecções privadas fornecidas pelos coleccionadores. Em termos de quantidade e qualidade das obras pode não ser muito satisfatório. Mas no entanto, este é apenas um prelúdio para a nossa nova fase de trabalho de recolha, de organização, recuperação, visualização, pesquisa e publicação. Com a intenção de atirar um tijolo para atrair o jade, o MAM sinceramente deseja que mais pessoas partilhem a mesma preocupação de mãos dadas para promoverem a cultura local e proteger obras dos pioneiros. Nós acreditamos que unir forças pode certamente produzir melhores resultados.


Chan Hou Seng
Director do Museu de Arte de Macau

Museu de Arte de Macau

Duração:
2011/05/05 - 2011/08/07