Instituto Cultural
A pintura de Guangdong apresenta uma trajectória evolutiva singular, evidenciando um “salto” muito expressivo na história da pintura chinesa. Embora tenha conhecido um desenvolvimento relativamente tardio, este estilo artístico ascendeu a uma posição proeminente com um ímpeto inesperado em meados e finais da dinastia Qing. Abandonando a intenção de introduzir ou imitar os estilos da região das planícies centrais e de Jiangnan, a escola de Guangdong partiu da profunda contemplação das paisagens locais para desenvolver gradualmente um estilo realista disposto a “envolver-se no mundo sem comprometer os seus princípios artísticos”, bem distante já das escolas Wumen e Xin’an, influentes no período inicial e mais dedicadas à imitação dos antigos. Assim nasceu o espírito da Escola de Pintura de Lingnan, dando origem a obras que “integram influências chinesas e ocidentais, fundindo o antigo e o moderno”. Esta trajectória da periferia para o centro, da tradição à inovação, conferiu à pintura de Guangdong um estatuto histórico sui generis nos meios artísticos da dinastia Qing, fazendo deste estilo pictórico um importante prelúdio para a modernização da pintura chinesa.
Lucidez numa Era Próspera: Pinturas de Guangdong da Dinastia Qing apresenta maioritariamente obras da colecção do Museu de Arte de Macau (MAM), uma colecção altamente sistemática e rica em trabalhos de referência para estudos aprofundados, contendo a maior concentração de pinturas do período entre meados da dinastia Qing e inícios da República da China. Em particular, destaca-se a colecção de produções de Su Liupeng e He Chong, notáveis quer em quantidade quer em qualidade. A colecção do MAM inclui múltiplas obras representativas dos primórdios da pintura de Guangdong, incluindo as de Lin Liang da dinastia Ming, onde é visível a transição do estilo meticuloso de pintura (gongbi), com a sua ênfase na cor, para o estilo expressivo (xieyi), com os seus traços livres em tinta-da-china.
“Magu Oferecendo Pêssegos da Longevidade” de Zheng Run, do início da dinastia Qing, é a única peça sobrevivente do artista. Em alguns estudos sobre história da arte de Guangdong, estas obras, que permaneceram muito tempo na sombra, foram frequentemente consideradas “tesouros escondidos”, pelo que esta exposição não só vem preencher uma lacuna na história da arte da região, como também proporciona uma panóplia mais abrangente de materiais visuais para possibilitar uma reavaliação mais directa da história e cultura da Grande Baía.
Esta mostra é fruto de uma colaboração entre o Museu de Arte de Macau, o Museu de Guangdong (Museu Lu Xun de Guangzhou), o Museu de Arte de Guangzhou e o Museu de Arte de Hong Kong, apresentando conjuntamente um leque de obras de pintura de Guangdong da dinastia Qing em toda a sua diversidade. Este modelo de “colaboração e complementaridade de recursos entre vários museus” vem dar continuidade à parceria desenvolvida em 2024 com a exposição Foco: Integração Artística entre a China e o Ocidente nos Séculos XVIII-XIX, aprofundando ainda mais os laços de cooperação abrangente entre as três regiões, tanto a nível da partilha de acervos, como da investigação e da organização de exposições, e contribuindo de forma dinâmica para o desenvolvimento de uma Grande Baía humanista.
Embora silenciosa, a tinta-da-china deixa uma marca indelével que resiste aos tempos. Lucidez numa Era Próspera é, simultaneamente, uma retrospectiva sistemática da pintura de Guangdong da dinastia Qing e um diálogo com um período vibrante da história de Lingnan. Os visitantes são cordialmente convidados a percorrer pausadamente esta exposição, a fim de poderem admirar o talento artístico e estilo vigoroso dos mestres de Lingnan nas pinturas coloridas (danqing), bem como apreciar a sua determinação em “envolver-se no mundo sem comprometer os seus princípios artísticos”. Espero que estas obras, após resistirem a um século de vicissitudes, possam continuar hoje a brilhar, a emocionar-nos e a permitir que o nosso legado cultural continue a fluir.
Desejo os melhores votos de sucesso à exposição!
Deland, Leong Wai Man
Presidente do Instituto Cultural do Governo da RAEM