Prelúdio do Estilo Moderno de Macau

Prefácio

“A Modernidade é o transitório, o efémero, o contingente, é a metade da arte cuja contraparte é o eterno e o imutável.” É uma citação sobre a estética da modernidade do escritor francês Charles Baudelaire no seu ensaio O Pintor da Vida Moderna. Ele considera a Modernidade como a vivência do tempo no “presente” – por oposição à busca da eternidade, típica da pintura renascentista.
 
A partir de meados do século XIX, com a rápida industrialização e urbanização, “o que é moderno” tem sido um tema central de debate em vários campos artísticos e literários. A retrospecção da modernidade nas artes visuais no Leste Asiático tornou-se um tópico preferido nos estudos culturais recentes e também uma motivação frequente na curadoria de exposições. Apenas reconstituindo o quebra-cabeças perdido da arte no seu processo de modernização poderemos ter uma compreensão exacta do panorama da cultura contemporânea. E só compreendendo o processo pelo qual o Oriente refinou, transformou, melhorou e expandiu a arte moderna ocidental ao longo do século XX, a par do surgimento de novas interpretações pessoais e de novas coordenadas culturais, poderemos explorar melhor a possibilidade de “múltiplas modernidades” sem seguir os exemplos do Ocidente.
 
A exposição, concebida em termos de documenta e intitulada Prelúdio do Estilo Moderno de Macau, apresenta mais de 150 obras de mais de 60 artistas, de Macau ou que tiveram uma ligação importante com a cidade, permitindo-nos traçar o contexto de desenvolvimento da pintura moderna em Macau desde o início do século XX até 1985. O que significa hoje Moderno ao utilizar a expressão “estilo moderno” para perspectivar a exposição? Significa simplesmente distinguir entre o antigo e o novo em termos de forma, estilo e técnica? Ou, ideologicamente, significa um tipo de “moderno” que cultiva a anti-tradição? Ou, como diz Baudelaire, uma vivência do tempo caracterizada pelo sentimento de “mudança”?
 
Modernização, Modernismo e Modernidade são conceitos com perspectivas diferentes, mas todos eles são reacções a mudanças sociais drásticas. Ao resumir o processo de adaptação da pintura ocidental em Macau como “estilo moderno” pretende-se não só classificar o estilo, mas também debater a progressão da arte moderna em Macau desde o seu início, do seu enraizamento até ao seu florescimento, definindo assim afinal o próprio conceito de Modernidade.
“Prelúdio”, utilizado no título da exposição, pretende demarcar a linha temporal, assinalando que até meados da década de 1980, a arte moderna de Macau estava, de certa forma, ainda na fase “pré-histórica”. Por outro lado, essa linha temporal comprova a assincronia da Modernidade. Em meados do século XX, a arte moderna já estava em declínio no Ocidente, sendo substituída pelo pós-modernismo, que atraiu as atenções a partir de meados da década de 1960. Mas em Macau, só até à década de 1980 é que a arte moderna se tornou popular, devido a uma vaga de imigração, um ambiente artístico mais intenso e uma maior circulação da informação.
 
A utilização de “Prelúdio” para a periodização (da arte moderna de Macau) pretende também fornecer um novo ângulo de visão para o desenvolvimento da arte, transformando assim um conceito de tempo, o do rio que corre, progressivo, linear e irreversível, num outro de narrativa histórica em constante expansão, sempre em mudança, e com um desenvolvimento multilinear – um pouco como Prelúdio, Interlúdio e Coda se interligam numa peça musical. Se entendermos a Modernidade nesse sentido, então o Modernismo não se refere apenas a um outro estilo/período que se segue ao Romantismo ocidental, mas pode ser também uma estratégia de inclusão de regiões mais atrasadas no panorama artístico internacional do século XX. Da mesma forma, a arte moderna de Macau, combinando estilos chineses e ocidentais, não é um mero produto acidental, devido à crescente imigração de pintores chineses e ocidentais para Macau, mas também uma aspiração de progresso baseada na introspecção.
 
Aparentemente, a arte moderna ergue alto a bandeira do formalismo, mas, paradoxalmente, é na verdade uma nova forma de reacção contra convenções ultrapassadas. Por exemplo, a tónica bidimensional da arte moderna advém da rebelião contra a perspectiva. Em comparação com muitos outros movimentos artísticos, com claras dicotomias ideológicas, e embora o progresso da arte moderna em Macau não tenha sido em sincronia com o Ocidente, começando muito mais tarde e mais lentamente, os seus artistas nunca adoptaram uma abordagem disruptiva, explorando antes conscientemente, desde o início, uma base de “combinar estilos chineses e ocidentais e integrar o antigo e o moderno”. Consideremos, por exemplo, mestres como Gao Jianfu e Situ Qi, que passaram temporadas em Macau, valorizavam mais a exploração das relações vazio-cheio, forma-espírito no quadro das tradições artísticas chinesas e ocidentais, praticando discretamente a adaptação local da pintura ocidental e beneficiando assim as gerações posteriores.
 
A pintura ocidental de Macau do século XX apresentou uma fusão de técnicas e conceitos chineses e ocidentais mas, em termos de conteúdo, o seu “traço de modernidade” não é notável. O Modernismo ocidental é uma arte feita de ansiedade e auto-expressão, muitas vezes com uma panóplia de emoções intensas mas universais, como a solidão, a perplexidade, o desespero e até sentimentos em relação à violência da guerra, etc., mas este lote de obras de arte moderna de Macau surge ainda como uma brisa suave. Em comparação, enquanto vemos com frequência na arte moderna ocidental paisagens de fábricas e arranha-céus – rotuladas como símbolos de civilização e progresso ou de objectos corruptores dos sentimentos – nas pinturas ocidentais de Macau daquela época ainda predominam pitorescas aldeias de pescadores e bucólicas paisagens de ruas e becos. Com excepção de algumas obras com um sentido temporal mais definido, como “Apontamentos de Macau – Dia da Corrida do Grande Prémio em 1954” de Luís Demée, ou as pinturas de propaganda de Lok Cheong, Lio Man Cheong e Poon Kam Pek inspiradas nas tendências políticas da época, muitas das pinturas ocidentais de Macau do século XX estão em assincronia com o Ocidente e com o seu próprio tempo. Por exemplo, a Macau retratada por George Smirnoff parece um paraíso na Terra, ignorando a guerra circundante. Por outras palavras, estas pinturas ocidentais de Macau não espelham necessariamente o seu tempo nem seguem as tendências internacionais, antes progridem ao seu próprio ritmo, com um sentido do tempo “presente” mas utilizando Macau e o seu contexto como metrónomo.
 
“Integrar (estilos) chineses e ocidentais” é a palavra-chave para compreender a cultura de Macau, e o período para tal integração foi longo e começou cedo. A “integração” é um “processo” adquirido e não uma “personalidade” inata, cujas características drásticas não devem ser camufladas por clichés monolíticos. Esta exposição começa por apresentar o desenvolvimento multilinear da pintura ocidental em Macau, complementado por detalhes das interacções e associações entre artistas chineses e ocidentais, a educação artística em estúdios e a aprendizagem mútua entre comunidades étnicas diversas, tentando assim revelar diferentes aspectos do discurso de “integrar (estilos) chineses e ocidentais”. De um modo geral, a autoconsciência estética da Escola Ecléctica, a procura de um estilo de pintura realista pela Associação dos Artistas de Belas- Artes de Macau, o legado dos pintores locais e a inovação de vários conceitos artísticos, mostram que Macau foi não apenas um canal na história dos intercâmbios culturais entre a China e o Ocidente, mas também um palco experimental para colisões civilizacionais.
 
Esta exposição mostra principalmente obras do acervo do Museu de Arte de Macau, complementadas por peças cedidas por amáveis coleccionadores. Ao longo dos anos, o MAM tem coleccionado obras de artistas de Macau através de aquisições, doações e convites à apresentação de obras de arte. Por outro lado, continua a trabalhar no âmbito de estudo, exibição e promoção dessas peças para compreender melhor o presente e perspectivar o futuro. O “Prelúdio” marca apenas o início da música. O estilo moderno de Macau, melodioso e evoluindo gradualmente para uma sinfonia, perdura até hoje.
 
Un Sio San
Directora
Museu de Arte de Macau

Piso 3 do Museu de Arte de Macau

Duração:
2022/09/09 - 2023/06/11