Prelúdio do Estilo Moderno de Macau

Prefácio

Uma Tendência Artística que Combina Estilos Chineses e Ocidentais – Desenvolvimento Multilinear da Pintura Ocidental em Macau

 

Os portugueses estabeleceram-se em Macau a partir de meados do século XVI. Com a expansão do comércio, bem como a chegada de diferentes ordens católicas a Macau para a construção de igrejas, a cidade tornou-se uma mistura de culturas orientais e ocidentais. A história da pintura a óleo em Macau, que constitui uma parte integrante da história da arte chinesa, marca o início da difusão da pintura ocidental na China.
 
Os padres Michele Ruggieri (1543–1607) e Matteo Ricci (1552–1610), que chegaram a Macau em 1579 e 1582, respectivamente, introduziram ícones religiosos no Interior da China, para fins missionários, assinalando assim a entrada da pintura a óleo na China. Natural de Macau, Emmanuel Yu Wen- hui (1575–1633) pintou o “Retrato de Matteo Ricci” em Pequim, em 1610, sendo esta a mais antiga pintura a óleo existente feita por um chinês. Em 1614, Giovanni Niccolò (1560–1626), que tinha regressado a Macau vindo de Nagasaki, no Japão, ensinava pintura no Colégio de São Paulo. É por isso que a Diocese de Macau possui hoje uma grande colecção de pinturas a óleo do final do século XVII em diante, incluindo “São Miguel Arcanjo”, “Retrato do Falecido São Sebastião” e “São Francisco Xavier Baptizado”. Entre eles, “Mártires Cristãos de Nagasaki”, criado por Mateus Van em Macau, em 1640, é a mais antiga pintura a óleo existente na China. De notar que na dinastia Qing a maioria dos pintores missionários que trabalharam na Corte Imperial viajou para Pequim via Macau. Assim, pode bem dizer-se que o primeiro capítulo da história da pintura a óleo chinesa teve início em Macau.
Do século XVIII a meados do século XIX, muitos pintores ocidentais visitaram Macau. Um deles foi George Chinnery (1774–1852), formado pela Academia Real das Artes de Londres. O artista viveu em Macau de 1825 a 1852, exercendo uma grande influência nos pintores cantoneses da pintura de exportação como Lamqua (Guan Qiaochang, 1801–1860), sendo considerado o pintor ocidental mais influente do Sul da China. O macaense Marciano Baptista (1826–1896), desenvolveu um estilo próprio, servindo-se das técnicas de pintura ocidental que aprendeu com Chinnery.
 
A partir do início do século XX, o número de pintores chineses e ocidentais a viverem em Macau aumentou gradualmente, com as ideias artísticas de “combinar os estilos chinês e ocidental e integrar o antigo e o moderno” a ganharem terreno no enclave, iniciando-se assim a adaptação local da pintura ocidental em Macau de uma forma concreta. Durante a Guerra de Resistência contra a Agressão Japonesa e no período anterior e posterior à fundação da República Popular da China, um número considerável de pintores de Guangdong mudou-se para Macau, onde os intercâmbios artísticos se tornaram frequentes. Mais tarde, a criação da Associação dos Artistas de Belas-Artes de Macau e do Grupo Arco-Íris melhorou ainda mais as condições artísticas de Macau, com artistas de diferentes origens étnicas e culturais a promoverem em conjunto o desenvolvimento, reforma e adaptação local da pintura ocidental em Macau.
 
Os meados da década de 1980 marcaram o início do florescimento da arte moderna em Macau, na que pode ser considerada a segunda fase do desenvolvimento da pintura ocidental local. A terceira fase começou em 2000, com um período de maior diversidade graças a uma nova geração de jovens artistas. Ao longo das várias gerações de artistas, as três fases do desenvolvimento da pintura ocidental em Macau revelaram sempre uma marca profunda das características artísticas entre o Oriente e o Ocidente.
 
A exposição, intitulada Prelúdio do Estilo Moderno de Macau, apresenta mais de 150 obras excelentes de mais de 60 artistas que permitem traçar os dois principais eixos de desenvolvimento no campo criativo da pintura ocidental, seja or artistas de Macau ou com importantes ligações a Macau, desde o início do século XX até meados da década de 1980, ou seja, as influências da pintura do realismo ocidental e do modernismo na arte de Macau. Naquela época de escassos recursos, os artistas preferiam retratar a vida concreta do seu tempo com técnicas realistas, mas alguns artistas, influenciados pelo Impressionismo, Fauvismo, Abstraccionismo e outras tendências artísticas, romperam com o realismo tentando criar novos estilos de pintura. Composta por quatro secções, a exposição centra-se em artistas e eventos de Macau, entrecruzando as experiências artísticas de grandes artistas e seus discípulos, em diferentes períodos. De forma cronológica e incorporando documentos relevantes de exposições de arte historicamente importantes, a exposição leva-nos a explorar em retrospectiva esta evolução da arte moderna de Macau, plena de sentimentos românticos.
 
A pintura é uma arte romântica, uma abordagem de puro lirismo e expressão. Nas obras desta exposição, as imagens associadas a Macau tornam-se um reflexo do espírito que pode ser transformado e transmitido. Macau, um importante centro da rota marítima da seda, é também um ponto de encontro das culturas orientais e ocidentais. O espírito do tempo e os significados da cidade descritos nessas obras eram o objecto de exploração dos artistas na época, que foram arautos de um período historicamente importante, e capazes de gerar um significado único – ou seja, o significado da história da arte de Macau no contexto da história da arte chinesa – quando considerada em termos estéticos. O desenvolvimento das artes plásticas de Macau é também um processo de acreção cultural de Macau. Nos últimos cem anos, várias gerações de artistas tentaram realizar a adaptação local da pintura ocidental em Macau, deixando um legado de glória eterna na história da arte de Macau. O significado da arte precisa de ser reconhecido e compreendido, o que em si é já uma espécie de legado espiritual. Actualmente, a nova geração de artistas alargou a plataforma da arte de Macau, construiu um sistema ideológico mais diversificado e explorou um caminho mais sustentável para o progresso artístico. Esperamos que os visitantes possam aproximar-se da vida dos artistas e descobrir mais possibilidades para a arte de Macau num mundo artístico onde continuam a coexistir estéticas tradicionais e modernas.
 
Para o trabalho curatorial desta mostra, foi necessário definir o tema, periodizar a história da arte, sintetizar estilos artísticos, seleccionar as obras a expôr e gerir todos os elementos de montagem da exposição. Os investigadores do Museu de Arte de Macau, o Sr. Chan Kai Chon e a Sr.ª Kan Pui Ian, tiveram de verificar documentos históricos sobre eventos artísticos relevantes. O seu substancial e eficiente trabalho de investigação apoiou a estrutura geral desta exposição, permitindo apresentar de forma clara e rigorosa o contexto histórico da pintura ocidental em Macau.
 
Gostaríamos de agradecer a todos os artistas participantes e aos coleccionadores pelos seus generosos empréstimos de obras para apoiar este evento artístico. O estudo de obras da colecção e da história da arte é um trabalho persistente, que enriquece ainda mais o conhecimento sobre o acervo. Inevitavelmente, haverá algumas deficiências na curadoria desta exposição e em documentos e materiais de estudo. É com prazer que convidamos homólogos dos círculos artísticos para nos darem sugestões.

Noah, Ng Fong Chao
Curador

Piso 3 do Museu de Arte de Macau

Duração:
2022/09/09 - 2023/06/11