Nas Brisas da Primavera

Pinturas e Caligrafia de Yang Shanshen doadas à Colecção do MAM por Lei Loi Tak e Lao Ngai Leong

Prefácio

Tendo conhecido Yang Shanshen há anos, escutava o que dizia mas nunca me ocorreu perguntar-lhe por que dera ao seu estúdio o nome de Chalé Brisa da Primavera, embora a expressão “brisa da primavera” surgisse com frequência nas suas caligrafias e pinturas. O velho senhor faleceu há dezoito anos e com ele foi a brisa da primavera, e hoje “a relva antiga já cobre o seu túmulo”. Mas, ao relembrar com profundo afecto cada fragmento dos seus dedicados ensinamentos e orientações, sinto-me logo a desfrutar da brisa da primavera.

No entanto, ainda não sei bem o que significa “brisa da primavera”, mas felizmente podemos explorar a questão com base nas obras que o Sr. Yang nos legou.

Os espectadores verão nas suas pinturas paisagens fascinantes de montanhas e rios, tal como descritas pelo poeta Shen Yue, das dinastias do Sul e do Norte: “A brisa da primavera abana as árvores; os seus galhos e folhas densos são um mosaico de verdes e vermelhos.” Ou poderão encontrar a vitalidade a ser nutrida, tal como a descreve o poeta Wang Wei da era Tang: “a lua brilhante reflecte-se na fina geada; a brisa da primavera sopra o que resta da antiga neve”, ou as imagens abstractas sugeridas por outro poeta da era Tang, Shen Quanqi: “Suspiro quando a brisa da primavera sopra; não se podem ver as folhas caídas. ”

Os visitantes podem experimentar a sensação de sentir a falta de um amigo longínquo, como disse o literato da dinastia Song do Norte, Huang Tingjian: “brindemos ao vento da primavera, apreciando pêssegos e ameixas; após uma década de atribulações, sinto muitas vezes a tua falta, à luz de uma lâmpada solitária, ao escutar a chuva nocturna.” Outras vezes, podemos ouvir o lamento impotente de Li Bai, “a brisa da primavera durará alguns dias; as nossas patilhas ficaram grisalhas”, ou até mesmo o encanto retratado na Canção da Meia-Noite das dinastias Wei e Jin, que nos diz “Seguro firme a lapela do meu robe sem usar o cinto; com as sobrancelhas semi-arqueadas, ponho-me de pé na janela da frente. O meu saiote esvoaça; se desvendar algo, culparei a brisa da primavera.”

A brisa da primavera é a energia vital das montanhas e dos rios. Na primavera, a vegetação floresce, os leopardos escondem-se, os macacos fazem algazarra, os peixes nadam e os pássaros voam livremente. A primavera refere-se a uma beleza com olhos afectuosamente atraentes, ao herói depois do seu tempo áureo e ao louvor à cultura tradicional chinesa pelo artista nos meados do século XX. Tudo isso se congrega no Chalé Brisa da Primavera, ou seja, no estúdio de pintura de Yang Shanshen, que nos revela uma mistura eclética, das culturas chinesa e japonesa com características ricas da região de Lingnan, distinta e brilhante.

Além disso, na caligrafia ele tinha um interesse e criatividade mais intensos do que os seus pares. Tal como na pintura, a sua caligrafia mostra uma integração de todos os estilos de todos os tempos, mas é criativa por direito próprio. Baseada na escrita clerical da dinastia Han, a sua caligrafia é antiga, simples e fundamentalmente ousada, com um espírito enraizado no temperamento natural e desinibido das dinastias Wei e Jin. Rompendo com as tendências e modelos tradicionais, Yang Shanshen produziu obras magníficas, com um vigor excepcional.

Yang Shanshen teve a sua revelação artística em Macau. Durante a Guerra Anti-Japonesa refugiou-se na cidade, onde fez amizade e intercâmbio com Gao Jianfu, o fundador da Escola Lingnan, ficando assim a conhecer o ambiente e pessoas de Macau, onde tinha participado em muitas actividades artísticas.

Em 2022, o Museu de Arte de Macau irá apresentar Nas Brisas da Primavera: Pinturas e Caligrafia de Yang Shanshen doadas à Colecção do MAM por Lei Loi Tak e Lao Ngai Leong. Há nove anos, foi exibido Yang Shan Shen: O Legado e há dezoito anos Novas Pinturas e Caligrafias de Yang Shan Shen. Assim, ao longo da sua vida, o Sr. Yang esteve sempre ligado a Macau.

Na linha do que disse Du Fu no seu poema – “o seu rosto de brisa primaveril apenas é conhecido por imagem” – a exposição intitula-se Nas Brisas da Primavera. No entanto, a natureza desta exposição é diferente das anteriores. As 100 peças/conjuntos de excelentes obras dos últimos anos do Sr. Yang pertenciam originalmente à colecção privada do empresário Sr. Lei Loi Tak e do líder de imigrantes em Macau Sr. Lao Ngai Leong, o primeiro um galardoado com a Medalha de Honra Lótus de Prata da Região Administrativa Especial de Macau, e o segundo o deputado de Macau à Assembleia Popular Nacional (APN). O Sr. Lei era um amigo íntimo de Yang Shanshen nos seus últimos anos da vida. Devido ao estreito intercâmbio com o pintor, o Sr. Lei e o Sr. Lao coleccionaram um grande número de obras-primas de Yang. Ambos dedicaram-se durante muitos anos ao desenvolvimento de actividades socioculturais e de beneficência. Com base no princípio “a alegria partilhada é mais apreciada”, doaram gratuitamente ao Museu de Arte de Macau as obras coleccionadas. Esta atitude generosa e altruísta foi profundamente tocante. Lei Loi Tak faleceu em Fevereiro de 2018. Esta exposição especial evoca na verdade outra boa recordação da brisa da primavera e é também uma demonstração da bondade do Sr. Lei e do Sr. Lao. Na medida em que estou ciente no momento dessa doação, deixo aqui menção para celebrar os dois antecessores e também persuadir outras pessoas a darem a sua contribuição para a cultura e a sociedade.

Chan Hou Seng

Consultor Artístico da Exposição

 

Piso 4 do Museu de Arte de Macau

Duração:
2022/04/02 - 2022/11/13