Candida Höfer

Olhar Épico

NOTA CURATORIAL

Candida Höfer, considerada uma das mais importantes fotógrafas conceptuais da segunda metade do século XX[1], é conhecida pelas suas perspectivas ortogonais, ao nível dos olhos, de interiores arquitectónicos de espaços públicos desprovidos da presença humana. Estas imagens impressas, que chegam a medir 2,59 metros de largura e 2 metros de altura, retratam maioritariamente ambientes construídos ocidentais, de carácter cultural, de diferentes tipologias e épocas. Muito do seu trabalho mais recente consiste em representações de edifícios projectados por arquitectos laureados pelo prémio Pritzker[2].

A exposição Candida Höfer: Olhar Épico é uma selecção curatorial escolhida a partir do corpus de trabalho desenvolvido por Höfer ao longo dos últimos vinte anos, incluindo uma variedade de peças organizadas em seis temas principais: “Passagens”, “Teatros”, “Museus”, “Bibliotecas”, “Visão do Mundo”, “Obras Inéditas” e uma projecção de vídeo intitulada “Espaços Silenciosos”. Estes temas estão contidos em secções separadas e dispostos num plano de exibição especificamente desenhado, como forma de promover uma contemplação ritmada e sequencial no espectador.

O título da exposição surge da visão global de Höfer empregue na captação de um ambiente construído particular que encarna as aspirações humanas de preservar, representar e comunicar o legado de bens históricos de que emanam crenças e estética profundas. Ao re-perspectivar estas estruturas através do meio da fotografia, Höfer reacende a questão de como estas obras-primas cruciais continuarão a moldar e pesar na memória colectiva das gerações vindouras.

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Só por si, a dimensão das imagens impressas apresentadas em Olhar Épico atinge os limites da actual tecnologia de impressão e técnicas de criação de arte digital, tais como a impressão a jacto de tinta sobre papel de alta qualidade montado em suportes rígidos. O meio da fotografia é fundamentalmente a arte de criar imagens[3], assim, as dimensões e as técnicas de impressão são cruciais na obtenção do objecto de contemplação desejado. Ao longo das décadas, os artistas que trabalharam neste meio procuraram um equilíbrio deliberado destes factores de modo a transcender e elevar a fotografia da mera produção em massa e separar o seu trabalho do esmagador acesso livre a imagens disponíveis na Internet.

As imagens feitas para a parede de Höfer[4] são em si próprias declarações, pois cada imagem que documenta o espaço veicula não só a história de um edifício particular, mas, mais significativamente, e quando vista como exaustivo corpus de trabalho ainda em expansão, suscita uma leitura transversal relacionada com a evolução do desenho arquitectónico, da sua capacidade para produzir conteúdo espacial e de continuar a formular a representação de um modelo de espaço que contenha a substância cultural de uma dada época.     

A monumentalidade destas imagens interpretadas do espaço gera retratos tipológicos que transmitem um vocabulário espacial específico da função pré-determinada destas estruturas. Esta assertividade desencadeia um reconhecimento visual imediato da sua intenção desenhada e uso final: forma, função e mestria técnica relacionam-se intrinsecamente, não deixando espaço a qualquer subjectividade e resistindo a quaisquer tentativas de interpretação. Estes ambientes interiores foram exclusivamente desenhados para assegurar uma única actividade, ou seja, neles o comportamento humano é também pré-determinado.  

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Conceber o desenho de uma exposição individual desta magnitude nas instalações de uma instituição de alto nível como o Museu de Arte de Macau, e com o consentimento de uma artista de renome internacional já consagrada nos anais da história da arte, foi um verdadeiro prazer e uma honra. Como curadores, esperamos ter alcançado as expectativas de ambos, que gentilmente nos deram total liberdade desde o início.

Somos ambos arquitectos, cuja prática diária combina elementos de organização espacial e composição, bem como uma grande sensibilidade à cor, luz, materiais tangíveis e uma valorização da forma estética. Iniciámos este projeto examinando todos os materiais disponíveis referentes às imagens que estavam à nossa disposição, desde uma colecção de catálogos fornecidos pela artista até outros encontrados na Internet, os quais, posteriormente, categorizámos em grupos distintos. Muitos desses agrupamentos, tais como “Teatros”, “Museus” e “Bibliotecas”, eram perceptíveis devido às séries intencionais de um trabalho específico. No entanto, visto em pormenor, notámos que certos temas, como escadas, corredores e outros espaços de transição, eram recorrentes em diversos projectos arquitectónicos e, para estes, concebemos intuitivamente um grupo intitulado “Passagens”.

Cada grupo tinha de ser reduzido a algumas peças representativas através de um critério segundo o qual as obras escolhidas deviam articular-se de modo a assegurar o equilíbrio, em termos de cor, proporção e conteúdo visual, com a narrativa geral de cada sala temática a que fossem atribuídas. Num museu, cada parede é uma personagem desta narrativa visual, mesmo que seja deixada vazia (que funciona como um intervalo entre as obras ou uma divisória entre temas). Uma das inspirações que obtivemos do trabalho de Höfer foi o seu poder hipnotizador de ordem e simetria. Esta inspiração foi aplicada em todo o plano da exposição em articulação com as estruturas existentes do museu (colunas, vigas e lajes). A exposição culmina na sala central, que alberga o tema principal “Visão do Mundo”. Em contraste, as paredes das salas adjacentes mais pequenas estão pintadas de cinza escuro para criar uma atmosfera mais íntima e mais focada, tanto para o espectador como para a obra.

Com esta exposição, esperamos ter conseguido trazer as obras mais relevantes de Höfer para um novo público e ter contribuído para o desenvolvimento cultural da Grande Baía e da região do Sudeste Asiático em geral, assim atraindo visitantes regionais e internacionais interessados em fotografia conceptual contemporânea. Em Olhar Épico, estes novos públicos poderão reconhecer a importância da obra de Höfer e a raridade da sua presença nesta região. 

 

 

João Ó & Rita Machado

Curadores

 

[1]            Gueland, Pauline. (s.d.) Candida Höfer. AWARE Archives of Women Artists, Research & Exhibitions.

(Trad. Simon Pleasance). Acesso a 12 de Março de 2022. <https://awarewomenartists.com/en/artiste/candida-hofer/>

[2]            Alguns dos lugares mostrados nesta exposição, listados cronologicamente, com o nome original do edifício, data de conclusão da construção e autores da arquitectura:

-     Trinity College Library, Dublin, 1592;

-     Igreja de São Francisco de Assis, Salvador, Bahia, Brasil, séculos XVII–XVIII;

-     Hermitage, São Petersburgo, Rússia, 1764;

-     Deutsche Oper am Rhein Düsseldorf, Alemanha, 1875;

-     Palacio de Bellas Artes Ciudad de México, México, 1930;

-     Villa Savoye, desenhado por Le Corbusier, Poissy, França, 1931;

-     Casa da Música, desenhado por Rem Koolhaas, Porto, Portugal, 2005;

-     Neues Museum, desenhado por David Chipperfield, Berlim, Alemanha, 2009;

-     Cidade da Cultura de Galicia, desenhado por Peter Eisenman, Espanha, 2012;

-     Elbphilharmonie Hamburg, desenhado por Herzog & de Meuron, Alemanha, 2016.

[3]        Thompson, Jerry, em Why Photography Matters, Cambridge, Massachusetts: The MIT Press, 2013, p. 84.

[4]        Ibid., p. 85.

Pisos 1 e 2, Museu de Arte de Macau

Data de Abertura:
2023/12/05 18:30
Duração:
2023/12/06 - 2024/05/19