Prefácio Geral
Quando Macau, uma cidade com mais de quatro séculos de integração das culturas chinesa e ocidental, inicia um diálogo artístico com uma saudação que evoca a de um funcionário da Alfândega: “Olá, o que fazes aqui?”, trata-se de um convite sincero aos meios artísticos de todo o mundo e também de uma resposta estrondosa dos profissionais da cultura contemporâneos às propostas da época.
Este ano, Feng Boyi, o curador principal da Bienal, defende o conceito curatorial de que “questionar significa agir”, desenvolvendo uma área de reflexão sobre a existência, bem como sobre o tempo e o espaço, no principal espaço expositivo. Xu Bing reflecte sobre a civilização humana através de imagens de satélite de lagos. Bart Hess capta a subtil interacção entre a moda e o corpo humano com peças de vestuário enceradas. Gregor Schneider reconstrói as leis físicas da consciência espacial com instalações arquitectónicas. Tobias Rehberger recorre à construção sistemática de espaços sociais para explorar a relação dialéctica entre a humanidade e o seu ambiente físico, abordando a questão da permeação mútua entre sujeito e objecto... Muitas obras-primas pioneiras criaram um domínio poético a partir da tensão entre realidade e hiper-realidade, guiando o público numa exploração do significado profundo da simbiose entre os indivíduos e o mundo através de questões fundamentais: “Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou?”
Dedicada ao tema “Ondas e Caminhos”, a Exposição de Arte Pública centra-se na fluidez, apresentando uma série de experiências conceptuais sobre a estética social. Ann Hamilton extrai símbolos artísticos de religiões populares e liberta o potencial narrativo de um edifício do Património Mundial como palco histórico e cultural, comemorando o 20.º aniversário da inclusão do Centro Histórico de Macau na Lista do Património Mundial. Yin Xiuzhen sublima os ciclos mecânicos dos tapetes de bagagem numa metáfora filosófica das trajectórias de vida, desconstruindo a visão linear do tempo com a coexistência do movimento e da imobilidade. Jason Ho constrói um microscópio social com artes participativas através de uma “sala de estar de bairro”, extraindo o espírito humanista do tecido social de Macau. Tendo Macau sido designada como “Cidade de Cultura da Ásia Oriental”, os artistas da China, do Japão e da Coreia do Sul são convidados a criar em conjunto uma instalação de arte pública centrada na filosofia oriental do tempo e do espaço, celebrando os profundos laços culturais entre as cidades da Ásia Oriental.
A secção do Pavilhão da Cidade foi organizada em estreita articulação com as políticas administrativas do Governo da RAEM. Consiste em dois pavilhões da cidade, um da China e outro de Portugal, fortalecendo o posicionamento estratégico de Macau como “centro de intercâmbio cultural entre a China e os países de língua portuguesa”, que se alinha com o desenvolvimento da cidade no sentido de se tornar uma “base de intercâmbio e cooperação para a promoção da coexistência multicultural, com predominância da cultura chinesa” (referida como “Uma Base”).
As Exposições Especiais organizadas pelos seis operadores de resorts integrados constituem uma secção distinta da Arte Macau, formando, este ano, uma feira de artes caleidoscópica, cujos conteúdos incluem desde gravuras de Picasso, tão inspiradoras para a modernidade, ao teatro multidimensional de fogos-de-artifício com inteligência artificial de Cai Guo-Qiang e à desconstrução da poética espacial da Art Déco francesa de Bruno Moinard; desde as instalações de luz dos Irmãos Hass, que guardam memórias industriais, à fantasia estética dopaminérgica de Craig & Karl e ao nirvana digital do fogo do forno de Jingdezhen em projecções em 4K... Em comparação com as edições anteriores da bienal, a secção das Exposições Especiais deste ano apresenta o mais impressionante alinhamento de artistas e o mais variado leque de formas de expressão artística.
O Projecto de Curadoria Local passou a estar aberto a seis candidaturas, ao invés das anteriores quatro, ficando as equipas seleccionadas automaticamente qualificadas para a Selecção Preliminar para a “Exposição Internacional de Arte La Biennale di Venezia – Evento Colateral de Macau, China”, o que não reflecte apenas a visão estratégica do Governo da RAEM de “fomentar o talento através de exposições”, como também abre caminho para “incubar localmente e estabelecer um elo de ligação com o mundo”, facilitando assim o diálogo entre as obras de Macau e o contexto mundial.
Este ano, é inaugurado um convite à apresentação de propostas para as Exposições Colaterais, com o objectivo de reunir o poder criativo de todos os quadrantes da sociedade local e de potenciar a diversidade do sector, com enfoque nos cenários da educação artística e das galerias comerciais.
No cômputo geral, a Arte Macau 2025 registou avanços a vários níveis: um maior apoio às obras locais e um maior número de obras-primas da autoria de artistas mundialmente aclamados; uma aproximação à comunidade e aos edifícios do Património Mundial, incentivando igualmente colaborações culturais na Ásia Oriental; e a concepção de um mecanismo inovador para interagir com o panorama internacional. Deste modo, esta bienal estabelecida nos últimos anos está a ganhar força e a desenvolver um espírito exploratório, impulsionando fortemente o desenvolvimento de Macau no sentido de se estabelecer como “Uma Base”.
Gostaria de expressar o meu profundo respeito ao curador principal Feng Boyi, bem como co-curadores Liu Gang e Wu Wei, aos artistas participantes de todo o mundo e a todos os nossos parceiros. No Verão e no Outono de 2025, vamos brandir juntos as artes para pintar mais um capítulo da nossa história em Macau, uma cidade que personifica a fusão das culturas chinesa e ocidental.
Leong Wai Man
Presidente do Instituto Cultural do Governo da RAEM