Fundação Oriente
Foi com grande honra que a Fundação Oriente recebeu o convite para ser co-organizadora da exposição Reflexos das Ligações Marítimas: O Intercâmbio Cultural SinoPortuguês entre os Séculos XVI e XIX, realizada no Museu de Arte de Macau, em colaboração com o Museu do Palácio e o Instituto Cultural do Governo da Região Administrativa Especial de Macau (RAEM). Esta iniciativa insere-se num âmbito mais geral da colaboração da Fundação Oriente com o Ministério da Cultura e Turismo da República Popular da China e a Associação Internacional de Cultura da China (CICA), a qual remonta a 1998 e conta já com vários projectos nas áreas das artes plásticas, das artes do espectáculo e da realização de exposições, tanto na China como em Portugal, de que é exemplo a exposição A Cidade Proibida, realizada em 1992, em Lisboa.
Portugal teve um papel pioneiro nas relações entre o Ocidente e o Oriente desde o século XVI, nomeadamente ao nível do comércio marítimo e das trocas culturais com a China e vários países asiáticos. Macau, onde os portugueses se estabeleceram em 1557, constituiu um importante entreposto comercial das relações sino-portuguesas, onde a porcelana chinesa se destacou, desde o início, como produto de excelência e de fascínio aos olhos ocidentais.
Vasco da Gama, navegador português que descobriu o caminho marítimo para a Índia, trouxe consigo, da viagem ao Oriente (1498), como presente para o Rei de Portugal, D. Manuel I, várias peças de porcelana chinesa branca decorada a azul-cobalto sob o vidrado, que teriam sido compradas em Calecute (Índia). Já no início do século XVI, no reinado do Imperador chinês Zhengde (1506-1521), realizam-se as primeiras encomendas de porcelanas à China com motivos portugueses, como a esfera armilar, as armas reais, o monograma IHS e brasões de armas de homens ilustres.
É com as primeiras encomendas para o mercado português, datáveis de cerca de 1519, que a porcelana chinesa entra definitivamente na Europa, pela via marítima. Na segunda metade do século XVI, já várias lojas em Lisboa se dedicavam ao comércio deste produto raro e exótico, também oferecido pelos reis de Portugal às cortes europeias.
A porcelana chinesa produzida nesta época e exportada para a Europa, ao longo dos séculos XVI a XIX, constituiu uma valiosa mercadoria de prestígio, símbolo de ostentação, exotismo e entesouramento, uma forma única da expressão do génio artístico chinês.
As peças pertencentes ao acervo da Fundação Oriente apresentadas nesta exposição vão desde o final do século XVI com os exemplares da chamada Kraakporselein, passando pelo século XVII e tendo o seu expoente máximo em termos decorativos e de qualidade de produção, no século XVIII, com a porcelana decorada a esmaltes policromos da “família rosa” e outros, a grisaille, preto, sépia e dourado, com temas europeus baseados em diferentes fontes iconográficas como as gravuras e os desenhos.
Com o passar do tempo, rapidamente a porcelana se transformou num produto assimilado no quotidiano dos portugueses, desde a família real às famílias nobres e ao clero, com uma diversidade de encomendas de serviços de mesa decorados com brasões de armas, comemorativos de determinadas efemérides e acontecimentos especiais, culminando no final do século XIX e início do século XX, com a decoração dita “mandarim” e, por exemplo, exemplares associados aos primeiros anos da República Portuguesa.
A porcelana chinesa tem sido, aliás, uma tipologia de peça em que a Fundação Oriente tem procurado investir nos últimos anos, no que diz respeito às aquisições, com o objectivo de fazer do Museu do Oriente uma referência a nível nacional e internacional no domínio das artes decorativas em geral e da porcelana chinesa de exportação para o mercado ocidental, em particular.
Gostaria de agradecer ao Governo da República Popular da China, ao Ministério da Cultura e Turismo da República Popular da China, à Associação Internacional de Cultura da China (CICA), ao Museu do Palácio, ao Instituto Cultural do Governo da RAEM e ao Museu de Arte de Macau, pelos contactos estabelecidos que conduziram ao distinto convite dirigido à Fundação Oriente para coorganizar esta exposição e participar com o empréstimo de peças do acervo do Museu do Oriente.
Esta cooperação institucional insere-se nos fins estatutários da Fundação Oriente, criada em 1988 com o objectivo da prossecução de acções de carácter cultural, educativo, artístico e científico a desenvolver em Macau (onde possui uma Delegação desde esse mesmo ano) e que visem a valorização e a continuidade das relações bilaterais de amizade, históricas e culturais entre Portugal e a China.
Carlos Augusto Pulido
Valente Monjardino
Presidente do Conselho de Administração da Fundação Oriente