SECÇÃO 2
INTERCÂMBIO CULTURAL EM PORCELANA
A prosperidade duradoura do comércio marítimo, com a incessante interacção entre as indústrias da porcelana da China e do Ocidente, enriqueceu grandemente o valor cultural da cerâmica, ilustrando uma história de fusão civilizacional e cultural que atravessa os oceanos. Portugal e a Península Ibérica contam com uma longa tradição de olaria, e a prosperidade do comércio mediterrânico conduziu à ampla circulação de cerâmica de lustre metálico sobre vidrado de estanho, o estilo predominante de olaria portuguesa na época. Influenciada pela porcelana chinesa azul e branca, a faiança portuguesa atingiu o seu apogeu no século XVII.
Os oleiros portugueses usavam abundantemente decorações azuis, esforçando-se a replicar motivos distintamente orientais, como figuras, pagodes, flora e fauna inspirados nos estilos “kraak” de porcelana chinesa. Estes elementos explícitos da cultura chinesa influenciaram profundamente o gosto estético da olaria portuguesa. No século XVIII, o icónico esquema cromático da porcelana chinesa azul e branca foi amplamente adoptado nos temas decorativos de pintura de azulejo, estendendo-se à cerâmica de uso arquitectónico.
Os países europeus incorporaram avidamente os estilos artísticos chineses na sua produção cerâmica, ao passo que os fabricantes de porcelana chinesa adaptaram os seus produtos às exigências do mercado europeu. Entre os séculos XVII e XIX, a produção de porcelana por encomenda na Europa atingiu o seu apogeu, com os artesãos chineses a incorporar as suas interpretações do Ocidente nos designs da porcelana de exportação. Durante esse período, as formas e estilos decorativos da porcelana reflectiam as características únicas da integração cultural entre a China e o Ocidente.
A porcelana Guangcai , criada no século XVIII, exemplifica esta fusão: artesãos locais desenvolveram as suas peças com base nas necessidades dos mercadores estrangeiros, combinando as técnicas de pintura de Cantão com a porcelana branca de Jingdezhen transportada para Cantão. Esta expansão dos centros de produção de porcelana chineses, adaptados às exigências dos mercados estrangeiros, criou um novo modelo de comércio, envolvendo a decoração e venda de porcelana em grande quantidade fora das áreas
tradicionais de produção.