Reflexos das Ligações Marítimas

O Intercâmbio Cultural Sino-Português entre os Séculos XVI e XIX

Biblioteca da Ajuda


As relações entre a China e Portugal, por intermédio de Macau, são marcadas por uma história de mais de quatro séculos, constituindo um dos capítulos mais duradouros e significativos da presença europeia na Ásia. Foi com grande entusiasmo que aceitámos o honroso convite do Museu de Arte de Macau para co-organizar a exposição Reflexos das Ligações Marítimas: O Intercâmbio Cultural Sino-Português entre os Séculos XVI-XIX. Esta iniciativa fortalece os laços de cooperação entre as nossas instituições e, por extensão, entre os nossos países.

A partir do século XVI, as grandes navegações portuguesas, movidas pela busca de novas rotas comerciais, inauguraram um período crucial de contacto entre o Ocidente e o Oriente, marcando o início das ligações marítimas entre Portugal e a China. Em 1513, Jorge Álvares tornou-se, oficialmente, no primeiro europeu a chegar à China por via marítima. A partir de 1553, os portugueses acabaram por se estabelecer em Macau, que passou a funcionar como entreposto permanente e porta de entrada do Ocidente no Império Chinês.

O comércio teve uma influência decisiva como um dos primeiros meios de estabelecer essas relações. Portugal assumiu uma posição privilegiada como intermediário no comércio de seda, porcelana e chá da China com destino à Europa, enquanto introduzia no mundo chinês produtos e saberes europeus, como armas de fogo, relógios mecânicos e técnicas de navegação. Esse intercâmbio foi enriquecido pela relevante actividade dos missionários jesuítas, que actuaram como mediadores entre a Corte Imperial e o Reino de Portugal. Figuras como Matteo Ricci, entre outros, desempenharam um papel fundamental nesse diálogo intercultural, adoptando a língua, os trajes e a filosofia locais, e traduzindo obras europeias para o chinês e viceversa.

Nos séculos XVII e XVIII, Macau consolidou-se como um importante centro de convivência luso-chinesa, onde coexistiam diferentes línguas, crenças e práticas sociais. A arquitectura da cidade reflecte essa mesma dicotomia, com igrejas barrocas ao lado de templos budistas e taoistas, e ruas decoradas com influências estéticas de ambos os mundos. Exemplos marcantes incluem o Templo de A-Má, a Igreja de São Lourenço, o Templo de Lin Fong, a Fortaleza e Capela de N.ª Sr.ª da Guia, o Colégio da Madre de Deus (Ruínas de S. Paulo), que ilustram a diversidade de funções religiosas e sociais.

Neste período, realizaram-se várias missões diplomáticas, com diferentes graus de sucesso, reforçando os laços entre Portugal e a China. De Portugal, destacamse as embaixadas de Manuel de Saldanha (1670), Bento Pereira da Silva (1678), Alexandre Metelo (1727) e Pacheco de Sampaio (1753). Por sua vez, a China enviou em 1721 a sua primeira embaixada, liderada pelo Padre António de Magalhães, nomeado em 1720 pelo Imperador Kangxi como representante oficial da Corte Imperial junto de Portugal e do Vaticano.

A Biblioteca da Ajuda, na qualidade de sucessora da Real Biblioteca, preserva no seu acervo inúmeros testemunhos valiosos dessas relações sino-portuguesas, com destaque para o “Grande Rolo Amarelo”, notável pela sua relevância diplomática, excepcionalidade e beleza material.

Estamos confiantes de que esta parceria será marcada pelo sucesso e contribuirá significativamente para a promoção da cultura e do intercâmbio internacional, fortalecendo, ainda mais, a confiança numa cooperação vindoura.

 

Cristina Pinto Basto
Coordenadora da Biblioteca da Ajuda

 



Data de Abertura:
2025/11/07 18:30
Duração:
2025/11/08 - 2026/03/08